A propósito da doença de refluxo gastro-esofágica
24/07/2012

A compreensão da história natural do refluxo gastro-esofágico (DRGE) é um passo fundamental para a avaliação clínica do doente, tratamento e seguimento adequado. A DRGE é uma entidade nosológica que se define como a passagem do conteúdo gástrico para o esófago, na ausência do vómito. 

Trata-se de uma doença com alta prevalência nos países ocidentais e parece existir uma relação directa com o desenvolvimento económico, atingindo de modo particular doentes com mais de 40 anos, de ambos os sexos. Com base nos dados estatísticos disponíveis, verifica-se que nem todos os doentes têm hábitos tabágicos, nem todos são obesos e quase todos têm sintomas durante muito tempo antes de procurem o médico.

A maior parte destes adultos sintomáticos não recorrem ao seu médico assistente, pois existe uma tendência cada vez mais vincada à desvalorização das queixas tanto por parte dos doentes como dos médicos, que muitas vezes enquadram estas queixas numa multiplicidade de problemas de causalidade diversa.

A diversidade e a frequência dos sintomas é grande e a tendência de desvalorização das mesmas atrasam muitas vezes, o seu diagnóstico, o que torna esta patologia frequentemente sub-diagnosticada.

A DRGE é uma patologia que se pode traduzir por sintomas típicos, atípicos e complicações associadas a lesões da mucosa do esófago ou manifestações extra-esofágicas. De modo a simplificar, os sintomas de DRGE podem ser divididos em sintomas típicos como por exemplo a pirose e a regurgitação e os sintomas atípicos como dor retroesternal, a disfonia, a rouquidão, a disfagia e as crises asmatiformes.

A disfagia aparece geralmente como complicação tardia e traduz a existência de um refluxo prolongado ou persistente associado a lesões severas. No entanto, é importante ter em conta que a intensidade dos sintomas típicos não têm uma relação directa de proporcionalidade com a existência ou gravidade das lesões, podendo mesmo existir doentes com queixas importantes mas sem lesões demonstráveis endoscopicamente.

O inverso, isto é, a pouca sintomatologia em relação com as lesões endoscópicas, pode surgir, contudo, é muito menos frequente.

Está demonstrado que o refluxo e o aparecimento das lesões e a gravidade das mesmas provocadas pelo refluxo, dependem do desequilíbrio de dois factores: Os factores protectores da mucosa e os factores agressores relacionados com a secreção ácida gástrica. Quando este equilíbrio é quebrado surgem as lesões, muito embora, seja a duração do contacto da secreção ácida gástrica com a mucosa esofágica inferior, o factor mais determinante para o aparecimento das mesmas.

Assim, adquire uma importância fulcral na história natural da doença, a competência do esfíncter esofágico inferior (EEI), que para além de ser uma barreira física natural à passagem do conteúdo gástrico, delimita também uma zona de transição esófago/gástrica.

Existem vários factores que podem contribuir para um anormal funcionamento do EEI, nomeadamente os fármacos que possam induzir o relaxamento do EEI, as doenças que provocam perturbações de motilidade esofágica (clearence esofágica), e as alterações anatómicas que condicionam o adequado funcionamento da barreira anti-refluxo.

Existem também outros factores não menos importantes, que podem de certo modo conduzir a ineficácia da barreia anti-refluxo, que estão relacionados com os estilos de vida inadequados, de modo particular o sedentarismo, as dietas pobres em fibras que condicionam obstipação crónica, os hábitos posturais incorrectos, a obesidade, o álcool e o tabagismo.

O médico de família assume na história natural da DRGE, um papel relevante numa abordagem inicial desta patologia, acompanhando os casos de menor gravidada e orientando para o especialista os casos que requerem uma intervenção urgente ou específica. Um dos critérios fundamentais para o sucesso do tratamento da DRGE é a compreensão por parte dos doentes da real dimensão desta patologia e o cumprimento terapêutico.

Em suma, os dados actuais demonstram que a DRGE é inequivocamente, uma doença crónica cuja evolução espontânea é marcada pela ocorrência de períodos de remissão intercalados com recidivas frequentes. A actual terapêutica farmacológica permite um adequado manejamento da doença na maioria dos doentes, quer no que diz respeito à terapêutica de fase aguda, quer no tratamento de manutenção. O facto de a maior parte dos doentes se manterem em remissão, pelo menos temporariamente, deve-se ao curso próprio da doença e suas características intrínsecas de evolução natural.

Sem dúvida, parece existir uma actividade oscilante na fisiopatologia da DRGE, o que justifica a tendência para a remissão na maioria dos doentes. O carácter de benignidade que se reveste na generalidade dos casos, torna o risco muito baixo de os doentes desenvolverem complicações mais graves nomeadamente esófago de Barrett, úlcera ou estenose.

O diagnóstico de esófago de Barrett, como complicação da DRGE é feito, na maioria dos casos, na primeira endoscopia. O esófago de Barret tem um risco acrescido de desenvolvimento de adenocarcinoma do esófago, justificando por si só, um cuidado especial no que diz respeito ao diagnóstico, vigilância e terapêutica.

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