Comunidade Surda em Portugal
Existe ou não uma comunidade surda em Portugal? que pessoas fazem parte dessa comunidade; como se relacionam entre si e com a comunidade ouvinte; ser surdo é uma deficiência ou é uma condição?
Tentar dar resposta a esta e outras perguntas é um desafio, principalmente porque é algo que não faz parte das nossas cogitações habituais. Passa por tentar conhecer um pouco de uma realidade que, convivendo connosco em sociedade, nos é quase completamente desconhecida, como se de um mundo à parte se tratasse – a realidade dos surdos.
Estima-se que em Portugal existam cerca de 120 000 pessoas com algum grau de perda auditiva (incluindo aqui os idosos que vão perdendo a audição gradualmente) e cerca de 30 000 surdos falantes nativos de língua gestual portuguesa (na sua maioria surdos severos e profundos) , mas efetivamente demo-nos conta que apesar de os vermos por ai, pelas ruas, pelos cafés, em grupo ou sozinhos, não conhecemos nada das suas vidas: como se sentem, estão ou não integrados na nossa sociedade cheia de sons, como é o seu mundo feito de silêncios? Sentir-se-ão deficientes ou simplesmente com uma condição diferente.
Como é o seu acesso à nossa cultura, como comunicam entre si e com os “ouvintes”? a verdade é que, chegados a este ponto, nos damos conta que pouco conhecemos a respeito dos surdos.
Até há uns anos atrás a definição de deficiência auditiva, para o INE, era “incapacidade parcial ou total para ouvir sons devido a uma lesão do sistema auditivo. O termo "surdo" só deve ser atribuído aos indivíduos cuja deficiência auditiva é de tal forma grave, que não podem beneficiar de nenhum aparelho”. Esta definição já não está em vigência, passando agora a vigorar a seguinte: “Perda ou anomalia das funções auditivas”.
Pressupõe-se que a alteração desta definição tenha por objetivo não ser tão redutora, e quiçá, libertar as pessoas, nesta condição, duma rotulagem muitas vezes envolta num juízo de valor negativo, o que contribuiria para uma maior desintegração social. De referir que até há bem pouco tempo atrás, os surdos-mudos eram pessoas muitas vezes descriminadas no meio social onde se inseriam. Talvez por isso, ainda hoje em dia se tenhamos a perceção, porventura errada, que no seio da comunidade surda existirá alguma desconfiança, na sua relação com o outro; Será que se fecharam sobre si próprios; desenvolveram uma linguagem própria, a linguagem gestual, algumas pessoas aquando do seu processo de socialização primário, e outras, já numa fase posterior.
Como vivem estas Pessoas e suas famílias? Como sentem esta condição de não ouvir?
Aceitam a diferença promovendo formas de comunicação e integração alternativas?
Aceitam e incentivam esta cultura própria e rica? Ou, pelo contrário, tentam negar, alterar a natureza, fazendo tudo o que está ao alcance da medicina para integrar estas pessoas no nosso mundo “barulhento”, através, por exemplo da introdução de implantes cocleares?
O que será que realmente a comunidade surda deseja? Passar a fazer parte da comunidade de ouvintes ou ter esquemas e ferramentas que lhes permitam, mantendo a sua cultura, ser integrada na sociedade, por vezes com soluções tão simples como contar com a colaboração de intérpretes nas atividades culturais do quotidiano; ter acesso a uma educação gratuita nas nossas escolas, com auxílio de professores que dominem a linguagem gestual; os mais pequenos terem acesso a filmes com legendas ou linguagem gestual, da mesma forma que as restantes crianças têm acesso aos mesmos filmes infantis com dobragem?
Sem dúvida vale a pena pensar em tudo isto e tentar conhecer um pouco mais esta realidade.
Fonte:
Excerto de trabalho integrado num estudo baseado em amostra de conveniência à comunidade surda em Portugal, por um grupo de alunos do ISCTE-IUL, no âmbito de Unidade Curricular do primeiro ano do curso de sociologia.